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A aprendizagem ao longo da vida do médico

Na carreira médica, estudar e aprender precisam ser práticas constantes e ininterruptas. Sendo assim, podemos refletir um pouco sobre como a automotivação é importante para um jovem médico que busca conhecimento, num contexto em que a autoaprendizagem e a procura autónoma de informação são cada vez mais uma necessidade profissional e social.

Atualmente, o pensamento educacional contemporâneo está mais centrado no conceito de educação contínua. Se a aprendizagem ao longo da vida é, sobretudo, uma responsabilidade do médico e constitui um aspeto crítico da sua formação, a perspetiva de uma formação contínua, através de diversas atividades, dentro e fora do meio académico, é uma realidade e uma necessidade ainda maior num mundo globalizado e tecnológico.

Concluir uma licenciatura ou um mestrado não é garantia de estar preparado para os desafios do presente-futuro e uma grande prova disso tem sido a luta contra a pandemia Covid-19. A verdade é que se sabia pouco sobre a evolução da doença e, diante da catástrofe que se instaurou mundo fora, foi preciso “correr contra o tempo”. Isso implicou (e ainda implica) estudar, pesquisar, analisar, diagnosticar e, mais do que isso, resolver um problema sanitário grave que teve e terá, ainda, muitas consequências em todas as áreas da vida das pessoas.

Para isso, foi preciso que muitos médicos e outros profissionais de saúde, na condição de autoaprendizes, se debruçassem em leituras, estudos, entre o socorro e os cuidados nos hospitais, horas a fio sem folgas, em longas e cansativas sessões a exercitar a autonomia em situações críticas de tomadas de decisão, justamente num contexto completamente instável, grave e de extrema pressão para salvar vidas e descobrir uma vacina para a doença.

Devemos acreditar que o pior já terá passado, mas com todas as perdas e os danos que a pandemia provocou, de certeza que esse cenário de caos proporcionou avanços e aprendizagens através das experiências vividas sob pressão, em que foi também preciso ter motivação, disciplina e autonomia.

Na medicina, bem como em outras áreas da saúde, manter-se atualizado através da aprendizagem contínua, para além do desenvolvimento pessoal e profissional, é uma obrigação dos médicos, uma vez que as suas competências técnico-científicas estão também associadas à compreensão dos fenómenos sociais e dos avanços tecnológicos e científicos que ocorrem nos contextos local e global na sociedade do conhecimento (1) (2) (3).

A educação médica tem por objetivo, então, formar profissionais competentes tanto para a prática médica e científica, quanto para se tornarem “eternos aprendizes” no que se refere à predisposição para a busca de informações e de conhecimento ao longo da vida e da carreira (4).

A aprendizagem ao longo da vida pode ocorrer em contextos formais ou informais de aprendizagem. Isso quer dizer que é possível aprender em qualquer circunstância, seja em contextos académicos, familiares ou socioculturais (que envolvem as relações com os amigos, com a cidade e os espaços de aprendizagem social em que as culturas são partilhadas).

Uma das perspetivas da aprendizagem ao longo da vida centra-se na independência para a pesquisa e na autonomia para estudar sozinho e buscar informações. Mas é preciso ter automotivação para o fazer (4).

Não se trata apenas de desenvolver uma carreira em que sabemos que a aprendizagem ao longo da vida constitui um fator crítico da responsabilidade social de um médico; trata-se, inclusive, de percorrer caminhos de aprendizagem que ajudem a manter a motivação constante para continuar a aprender e, nisso, encontrar satisfação e crescimento pessoal.

A autonomia e a automotivação são aspetos cruciais para a autoaprendizagem. Aprender sozinho ou ter autonomia para buscar informações para construir conhecimentos de forma constante é uma competência que pode e deve ser desenvolvida durante toda a aprendizagem escolar e a vida académica. Contudo, o quotidiano de um jovem estudante de medicina é sobrecarregado de atividades que exigem horas de estudo e dedicação. Nesse sentido, manter a automotivação para continuar no percurso de autoaprendizagem nem sempre é uma tarefa fácil e simples.

As Teorias da motivação advém de inúmeras vertentes, nomeadamente de estudos psicanalíticos, behavioristas, humanistas e cognitivistas. (5)

Na perspetiva humanista, o expoente dessa corrente é Abrahan Maslow, que foi um líder na disseminação dos estudos da Psicologia Humanista. Maslow desenvolveu teorias que ajudam a compreender a motivação e a sua relação com a aprendizagem e a perceção. (6)

piramide_de_maslow
Pirâmide de Maslow

Segundo os estudos de Maslow, as necessidades fisiológicas, de segurança, sociais e de estima precisam estar asseguradas para que haja possibilidade de atender às necessidades de autorrealização – que incluem a criatividade, a autonomia e o crescimento pessoal. 

Garantidas as necessidades mais básicas, nomeadamente as três primeiras, da base para o topo, os indivíduos estariam aptos a desenvolverem a sua autoestima, criatividade, autonomia, motivação e satisfação.

Na perspetiva de Maslow, suprir as necessidades fisiológicas e de segurança, que estão na base da pirâmide, seria fundamental para trabalhar a autoestima e a autoconfiança, posto que as necessidades sociais também estão associadas à aprovação social, ao reconhecimento (da dedicação, das capacidades e dos esforços, por exemplo). Assim, as necessidades de estima e autorrealização são necessidades psicológicas que todos precisamos para nos mantermos motivados, criativos e autónomos, fatores esses que contribuem para a aprendizagem ao longo da vida.

Portanto, manter a motivação e a autonomia para a aprendizagem ao longo da vida é, também, uma questão que passa por avaliar as próprias necessidades e competências, analisando as áreas da vida nas quais ainda é preciso investir para manter um ritmo de autoaprendizagem que garanta um caminho de automotivação e autorrealização pessoal e profissional. 

Referências

(1) European Comission: Making a European  Area of Lifelong Learning a Reality. Brussels. (2001). 678:9. Disponível em: http://ec.europa.eu/ education/policies/lll/life/communication/com_en.pdf

(2) European Parliament: Decision No 2493/95/EC of the European Parliament and of the Council. Official Journal of the European Communitiesestablishing (1996) as the ‘European year of lifelong learning’.  1995:L256/10  Disponível em: http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=CELEX:31995D2493:EN:HTML

(3) Comissão das Comunidades Europeias. (2000). Memorando sobre aprendizagem ao longo da vida. Documento de Trabalho dos Serviços da Comissão, Bruxelas. Disponível em: https://dne.cnedu.pt/dmdocuments/Memorando%20sobre%20Aprendizagem%20Longo%20da%20Vida%20pt.pdf 

(4) Salgueira, A. P., Frada, T., Aguiar, P., & Costa, M. J. (2009). Jefferson scale of physician lifelong learning: translation and adaptation for the portuguese medical population. Acta Médica Portuguesa, 22(3), 247-56. Disponível em:  https://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/view/1699 

(5) Davidoff, L L. (2001). Introdução à Psicologia. 3 ed. São Paulo: Makron Books. 

(6) Penna, A. G. (2001). Introdução à Motivação e à Emoção: Rio de Janeiro. Imago. 

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